É a nova discussão do dia (para além das placagens ou não placagens de Owen Farrell, do “fim” dos All Blacks como força Mundial, da falsa ideia de imposição de quotas na África do Sul) e que tem dividido opiniões, tanto de dirigentes, jogadores, adeptos e antigas lendas do rugby: naturalizações.

Várias selecções têm investido no desenvolvimento da sua formação, ao mesmo tempo que procuram reforçar algumas pechas no escalão sénior, numa clara tentativa de empurrar a modalidade num sentido de amplo crescimento e de alta visibilidade. Contudo, a “contratação” de jogadores que ao fim de três anos podem alinhar pelas selecções nacionais das ligas em que jogam tem levantado uma guerra intensa entre vários elementos da modalidade.

Quem é contra, afirma que as naturalizações tapam a possibilidade de jogadores nativos chegarem à selecção nacional de uma forma normal, descaracterizando o espírito e sentido de união dessa selecção. Quem é a favor, argumenta que as naturalizações ajudam as selecções desenvolver outras áreas do seu jogo, eliminando certos problemas a nível de posições e elevam os níveis de intensidade e exigência para outro plano.

O tema leva a uma discussão de “surdos” em certas ocasiões, com os dois lados da barricada a não quererem perceber as questões e problemas que subsistem nas argumentações. Exemplo disso, é o extremar de posições principalmente do lado onde existem mais reservas para com as naturalizações, exigindo que se levantem novas regras que impeçam naturalizações ou que elevem o número de anos necessários para poder jogar por esse novo país.

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CATEGORIZAÇÕES DO TIPO DE NATURALIZAÇÕES

O crescimento do rugby como fenómeno global (e não só de alguns países, entenda-se) abriu as suas fronteiras para que novos jogadores tentassem a sua sorte em outras paragens, existindo vários níveis de tipos de naturalizações. Vejamos todos e alguns exemplos em cada um.

Jogadores que nunca jogaram a um nível internacional em categorias de formação (sub-17 a sub-20) pelo país que nasceram e que foram parcialmente criados mas por via de alguma ascendência familiar podem alinhar por outra selecção. Foi o caso de George North (nascido em Inglaterra de mãe galesa e pai inglês, foi viver para a terra dos Dragões com apenas 2 anos) ou Dylan Hartley (aos 15 anos foi para Inglaterra e podia jogar desde logo pela selecção da Rosa pela via maternal).

Jogadores que nasceram noutro país, mas que viajaram entre os 1-15 anos para outra nação e escolheram representar o país onde ficaram a viver. Casos dos irmãos Vunipola (Mako e Billy foram ainda em crianças para o País de Gales com os pais, com passaporte do Tonga, para depois emigrarem para Inglaterra em idade juvenil), de Joe Cokanasiga (nasceu nas Fiji mas aos 3 anos foi viver para Inglaterra com o pai, estabelecendo-se totalmente em 2013 com 16 anos de idade), de Waisake Naholo (nascido também nas Fiji, mas cedo foi para a Nova Zelândia onde desenvolveu-se como jogador e pessoa) ou mesmo de David Pocock (nascido e criado no Zimbabwe, a família foi forçada a ir para a Austrália quando tinha só 14 anos).

Jogadores que nasceram e jogaram pelas selecções de formação dos seus países, mas que em idade adulta emigraram para outra nação e foram lançados na categoria internacional sénior. Casos de Samu Kerevi (representou as Fiji a nível sub-20, apesar de ter ido para Brisbane com 4 anos, optando a nível sénior por jogar pelos Wallabies), CJ Stander (internacional sub-18 e 20 pela África do Sul, optou por ir viver para a Irlanda com 22 anos e esperou 4 anos até jogar pelo Trevo), Gareth Anscombe (internacional sub-20 pela Nova Zelândia, foi para o País de Gales em 2014) ou Ross Moriarty (internacional em todas as camadas jovens da Inglaterra, optou pela cidadania galesa pela via do pai).

Jogadores que emigraram já em nível sénior sem nunca terem actuado por selecções de formação, incluindo de 7’s, e internacionalizaram-se pelos novos países após os três anos de residência. Casos de Bundee Aki (nascido na Nova Zelândia, vive em território irlandês desde 2014), Hadleigh Parkes (neozelandês de nascença, começou a jogar nos Scarlets do País de Gales a partir de 2014) ou Sefa Naivalu (viveu nas Fiji até aos 22 anos, para depois receber uma bolsa do programa Rugby Plus em território australiano).

Jogadores que nasceram e jogaram pelas selecções de formação dos países onde nasceram, mas que em idade adulta emigraram para outra nação e por via da ascendência familiar (paternal ou maternal) internacionalizaram-se por esse país. Brad Shields (pais ingleses, jogou pelos sub-20 da Nova Zelândia e aos 27 anos optou por ingressar na selecção inglesa) é o caso mais recente deste parâmetro.

Depois ainda há o caso de Huw Jones, o centro que nasceu na Escócia, mas com 10 anos foi para a África do Sul viver, formando-se lá como atleta para depois se internacionalizar pela Escócia ainda quando jogava em solo sul-africano (Stormers).

Ou seja, no rugby há uma multiplicidade de situações que requerem muita atenção e algum trabalho de análise para compreender que as naturalizações não é ao calhas, não passa por “comprar atletas” e não é um meio para atingir os fins mais rapidamente.

Há alguma contestação por parte das vozes anti-naturalizações de que atletas não nascidos pela selecção que representam não sentem as cores, a história e a cultura da mesma forma que os nativos e descaracterizam por completo a Irlanda, Inglaterra, Austrália, ou qualquer outro país.

 

ACULTURAÇÃO… NÃO É INVASÃO, É EVOLUÇÃO

Contudo, esta é uma das maiores farsas propagadas e por várias razões: é impossível dizer se o naturalizado ou não sente as cores do país que representa e se está lá para ganhar mais dinheiro; o Mundo está globalizado e a movimentação de pessoas é completamente diferente do que era há 50 anos atrás, sendo que a aculturação sempre fez parte da História da humanidade.

Um exemplo máximo de que um naturalizado sente as cores do seu novo país, é a imagem de Bundee Aki após o Irlanda-Nova Zelândia. O centro festejou não a derrota dos All Blacks, mas sim a vitória da Irlanda, tocando e agarrando o símbolo das Irlandas unidas enquanto cantava e festejava com os adeptos. Dylan Hartley, muitas vezes criticado pela sua agressividade, é consecutivamente apelidado de “kiwi”, mas é meio-inglês… nunca virou a cara à luta pela Rosa e sente de uma forma única a selecção da Sua Majestade.

E Sergio Parisse? Nascido em La Plata, na Argentina, de pais italianos, será para sempre recordado como uma das maiores Lendas dos Azzurri com uma alma fenomenal e uma fome total em lutar pela sua Itália.

Os exemplos são vastos e a boa maioria são bons, contando-se pela mão (e uma mão deverá ser o máximo que conseguirão contar) os jogadores que não se deram bem pelo seu “novo” país.

Em Portugal também existiram diversos exemplos de jogadores que não nasceram em solo luso mas que representaram com excelência os Lobos como Julian Bardy, Jacques Le Roux, Juan Muré, Christian Spachuk, David Penalva (que até à bem pouco tempo ajudou a Selecção Nacional como treinador, tendo abandonado o staff técnico devido a razões nunca esclarecidas pela Federação Portuguesa de Rugby), Juan Severino Somoza, Anthony Alves, Francisco Fernandes, entre outros tantos.

Seria justo questionar o carinho e a paixão destes jogadores só porque não nasceram ou que na sua maioria não jogaram no Campeonato Português? O caso português é singular, uma vez que a falta de fundos para o rugby nacional têm criado sérias fissuras na vinda de jogadores do estrangeiro para actuar pelos Lobos.

Todavia, existe uma ideia vincada por alguns indivíduos de que será possível atingir o patamar seguinte do rugby europeu só com atletas a jogar na Divisão de Honra. Num Mundo em que o rugby é globalizado, esta ideia (e possível decisão já tomada pelo staff técnico português) é baseada em princípios errados, sustentado numa utopia que facilmente ruirá.

No Brasil, o caminho escolhido para fortalecer os Tupis nos últimos anos fo trazer atletas nascidos no Brasil, mas que cresceram e se iniciaram no rugby fora do país. São os casos dos irmãos Sancery e Valentin Garcia (criados na França), Yan Rosetti, Caique Segura e Stefano Giantorno (criados na Argentina) e Pedro Bengaló (ex Cascais). A vinda desses atletas, no entanto, foi completa, com a CBRu tirando-os de seus clubes estrangeiros para levá-los a clubes brasileiros. A tais casos somam-se os jogadores nascidos no exterior, mas com famílias brasileiras, como David Harvey (nascido na Austrália), Juliano Fiori (nascido na Inglaterra), ambos já fora dos Tupis, e Matteo Dell’Acqua (nascido na Itália). A indetificação de tais talentos foi feito por um programa oficial da CBRu de mapeamento de brasileiros no exterior.

Por fim, estrangeiros que atuam no rugby brasileiros, como o neozelandês Josh Reeves, os sul-africanos Devon Muller e Jacobus De Wet Van Niekerk, o inglês Will Broderick e o francês Laurent Bourda-Couhet, completam um quadro bastante heterogêneo no Brasil. Não por acaso, na partida histórica contra os Maori All Blacks, os Tupis tiveram 8 atletas entre seus 23 que não foram formados no rugby brasileiros, mas certamente se desenvolveram dentro do programa de alto rendimento dos Tupis.

Regressando ao tema, as naturalizações têm permitido alimentar o rugby de outros países com novas ideias, filosofias, maneiras de jogar, toques culturais diferentes, enchendo os países com outras tonalidades que muito favorecem a modalidade. Têm de existir regras para as naturalizações, mas a ideia de que se têm de colocar “fronteiras imaginárias” rígidas que impeçam novas naturalizações é uma falácia extremamente errada e que pode funcionar contra a corrente do Mundo actual.

Os números apresentados pela ESPN de número de jogadores naturalizados que actuaram nos Internacionais de Inverno é mal concebida, uma vez que não divida casos como os do Vunipola do de WP Nel ou Bundee Aki. Estatísticas baseadas em dados mal analisados e compreendidos levam a conclusões erradas e a fundamentações mal concebidas desde o seu nascimento.

Escrito por: Francisco Isaac