ARTIGO OPINATIVO – Este artigo faz parte da coluna Voz do Rugby – a coluna aberta aos rugbiers que querem opinar sobre assuntos diversos sobre o rugby. O artigo não necessariamente representa a opinião do Portal do Rugby. Abrimos o espaço para o debate. Quem quiser enviar artigo, mande-os para contato@portaldorugby.com.br.

O artigo de hoje foi enviado por Alexandre Cleaver, atleta e ex-secretário-geral do SPAC.

 

Carta aberta ao rugby brasileiro

- Continua depois da publicidade -

Ao rugby brasileiro,

Há algumas semanas, a Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) anunciou aos clubes do país a chegada do profissionalismo ao continente, na forma de um torneio sul-americano de franquias nomeado Super Liga Sul-Americana de Rugby (SLAR). Tal competição terá sua primeira edição no primeiro semestre de 2020 e o Brasil, por meio da CBRu, comprometeu-se a sediar duas das seis franquias que participarão da edição inaugural.

Tendo em vista o impacto que o torneio profissional terá sobre os campeonatos nacionais e regionais, a Confederação propôs aos clubes brasileiros o seguinte modelo para o próximo ano. Durante o primeiro semestre, enquanto se disputa a LAR, os clubes participarão da primeira fase do torneio nacional em grupos regionais, sem a presença dos atletas comprometidos com as franquias. Eles calculam que serão 72 os jogadores que se encontrarão em tal condição, com contrato assinado, vivendo exclusivamente de rugby – é dizer, profissionais. Após o término da liga de franquias, apenas 28 atletas permaneceriam comprometidos com o calendário profissional, reunidos para disputar partidas pela seleção brasileira. Os outros 44 profissionais, então, retornariam ao calendário de clubes amadores para participar dos jogos decisivos do torneio nacional. Isso significa praticamente metade dos jogadores em súmula para a segunda metade do torneio proposto.

Ao meu ver, tal formatação terá consequências nefastas, as quais aqui descrevo. Ao final, farei também uma proposta alternativa, com o intuito de oferecer uma pauta às conversas entre os atores do meio, que deveriam se iniciar de imediato. Afinal, os clubes de rugby do Brasil não podem mais se omitir a participar do debate pela preservação de seu futuro.

Argumenta a Confederação que um dos benefícios desse novo calendário será garantir um número ideal de partidas anuais aos clubes e jogadores amadores. Ora, é evidente que, com o retorno dos profissionais, os atletas que classificaram seus clubes para a segunda etapa do torneio serão deixados de lado, ficando eles sem calendário algum para o restante do ano! O objetivo, portanto, é muito diferente do anunciado. Com um torneio nesses moldes, a Confederação garantirá aos seus atletas profissionais um calendário anual de atividades da maneira mais cômoda e barata possível, em detrimento do restante do rugby que aqui se desenvolve. Em termos sucintos: organizará-se o campeonato brasileiro de rugby em função de 70 pessoas, para que elas possam jogar rugby profissional o ano todo sem acarretar grandes custos à Confederação.

Ora, em um esporte que precisa aumentar seu número de praticantes e, consequentemente, de público consumidor (já que deseja-se falar sobre um projeto de profissionalismo sustentável), a solução que nos dão é transformar todos os outros atletas do país em sparrings e privar os melhores entre os amadores de metade de seu calendário! Agora, terão os clubes brasileiros que, além de fomentar e financiar o trabalho de base que fornece os atletas à máquina do alto rendimento, também encontrar maneiras de convencer seus jogadores de que é extremamente prazeroso assistir à segunda metade do torneio pela internet e que, se possível, eles devem se manter no melhor da forma física e continuar associado ao clube. Pois não se iludam: a maioria esmagadora dos clubes de rugby brasileiro têm nas contribuições mensais de seus atletas uma de suas principais fontes de renda.

Nesses parâmetros, é difícil imaginar que qualquer resultado alcançado pela seleção brasileira possa convencer os jogadores deste país de que ainda vale a pena dedicar suas vidas ao rugby. Muito mais fácil é crer que o efeito será similar ao de quando a Confederação passou a fazer exigências inalcançáveis aos clubes incipientes de estados distantes do eixo Sul-Sudeste. Não são poucos os relatos que chegam das regiões Centro-Oeste e Nordeste do país sobre como tais políticas minaram um cenário de rugby que buscava se consolidar. Agora, com a solução que propõe aos clubes do eixo, principal pólo do esporte no Brasil, a CBRu ameaça jogar uma pá de cal no crescimento do rugby nacional. Sem clubes para formar atletas e público, para introduzir esse ainda desconhecido esporte no imaginário do brasileiro, que esperança há de se sustentar uma liga profissional por muito tempo? Por quantos anos bancará a World Rugby metade dos custos de um torneio caro se ele não gerar retornos, nem financeiros, nem esportivos? E o que é, provavelmente, mais aflitivo: se esse castelo de cartas ruir, a que cenário regressará o rugby brasileiro?

Que não se iludam os clubes que hoje praticam o semiprofessionalismo e que reunem praticamente todos os atletas do programa de Alto Rendimento da CBRu em seus planteis. A falta de adversários também significará a decadência para vocês, lenta e gradual. A todos os outros, especialmente aqueles que não se encontram próximos a São Paulo ou Florianópolis, locais em que pretende-se estabelecer as franquias brasileiras do LAR, é de se pensar qual será a presença efetiva dos profissionais em suas agremiações (e a recente experiência com os Núcleos de Alto Rendimento fornece uma boa indicação sobre o resultado dessa política).

Quanto à qualidade do jogo, pensada de maneira ubíqua, dois fatores primordiais devem reverter a pequena ascensão observada na última década: a extinção de um torneio nacional de segunda divisão (a chamada Taça Tupi) e a redução no número de partidas interestaduais, fator que já está em prática desde o ano passado. Com cada vez menos jogos entre as diferentes equipes, a tendência em longo prazo é que a disparidade aumente, prejudicando especialmente os times de elite que não possuem adversários de mesmo nível em suas regiões.

Assim, é de se pensar o que será do rugby brasileiro se os clubes não tomarem uma postura ativa e imediata em relação ao cenário que se desenha. Com isso em mente, ofereço as seguintes bases para a discussão de um novo horizonte.

PROIBIÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DE QUALQUER ATLETA COM CONTRATO PROFISSIONAL NO CAMPEONATO BRASILEIRO DE RUGBY AMADOR

Os efeitos nefastos da atual estrutura semiprofissional têm sido sentidos com especial força este ano. A concentração dos atletas que participam do programa de Alto Rendimento em pouquíssimos clubes e cidades tem gerado enorme desequilíbrio nos torneios, fato que em nada ajuda a desenvolver o esporte. Entretanto, podemos desculpar a estranha aceitação passiva e calada dos clubes brasileiros em relação ao tema, silêncio esse sem precedentes no mundo do esporte, sob a justificativa de que não havia um calendário alternativo para profissionais na América do Sul, muito menos no Brasil, e de que também queremos que o esporte se desenvolva a passos largos.

Esse único argumento para sustentar uma situação que, sob todos os outros pontos de vista, é insustentável, encerra-se no momento em que a Confederação anuncia a chegada do profissionalismo no continente, sob a forma da liga de franquias. Agora, todos os atletas que desejam se profissionalizar possuem um caminho, assim como todos os clubes que pretendem fazer o mesmo. Não é necessário que o desenvolvimento do rugby amador fique prejudicado pela presença de atletas e instituições profissionais e não devem, em hipótese alguma, os torneios amadores serem utilizados para preencher o calendário dos profissionais. Essa não é, nem pode ser, a incumbência do esporte amador, sob risco de incidirmos em todos os malefícios que a URBA (União de Rugby de Buenos Aires) mencionou temer em sua carta ao rugby argentino no momento da criação do PLADAR (Programa de alto rendimento da confederação argentina – tais tópicos podem ser lidos na seguinte reportagem do Portal do Rugby: http://www.portaldorugby.com.br/noticias/internacional/noticia-1333). Alguns deles, inclusive, já têm sido sentidos, na forma de uma crise de valores estimulada pelo apego à competição.

Porém, tal cisão não será importante apenas à manutenção do rugby amador no país. Se é desejo da World Rugby, CBRu, LAR e todos os demais envolvidos estabelecer alicerces fortes para o profissionalismo no continente, eles necessitam que os clubes amadores prosperem na região! Afinal, é por meio deles que as pessoas entram em contato com o desconhecido esporte, que se tornam jogadores, entusiastas, espectadores e tudo mais de que um esporte profissional necessita. Eles são a porta de entrada para o mundo do rugby e, se ela não estiver bem aberta, ninguém irá assistir torneio algum, seja hoje, seja em dez anos.

PAGAMENTO DE TAXA AOS CLUBES FORMADORES QUANDO DA ASSINATURA DE UM CONTRATO PROFISSIONAL POR UM DE SEUS ATLETAS

Aqui, novamente, os exemplos históricos são inúmeros. A própria lei brasileira, embora escrita muito em função do cenário do futebol no país, abarca e dá legitimidade a tal demanda, para não citar as políticas da própria World Rugby.

Fato é que todos envolvidos com o esporte, amadores e profissionais, irão se beneficiar com a medida. É possível, inclusive, definirmos de antemão parte da destinação de tal verba, obrigando os clubes a reenvesti-la em medidas para as categorias de base, aproximando-os dos pressupostos definidos pela Lei Pelé para clubes formadores. Tal procedimento tende a criar um ciclo virtuoso, em que as agremiações investem na formação de jovens e são recompensadas financeiramente, assim desenvolvendo o clube, o esporte e as pessoas que deles fazem parte.

Sem dúvidas, algo nessas linhas tem muito mais chance de sucesso do que o atual modus operandi, que tenta obrigar os clubes, na marra, a criarem e desenvolverem categorias de base sem ajuda financeira alguma para, então, incentivar os jovens a buscarem contratos profissionais com outras equipes, quando não com a própria Confederação, deixando os clubes formadores orfãos de seus atletas e sem retribuição alguma pelo esforço realizado anos a fio. A democratização, popularização e estabilização do rugby no Brasil passam, necessariamente, por incentivos que recompensem os clubes formadores.

FORMAÇÃO DE UMA LIGA DE CLUBES AMADORES DO BRASIL, DE CARÁTER NACIONAL, QUE RECEBERÁ REPASSE DA LIGA SULAMERICANA DE RUGBY (LAR) PARA MANUTENÇÃO DE SUA ESTRUTURA ADMINISTRATIVA

Pelo que está exposto acima, resta claro o quanto a prosperidade do esporte amador nos diferentes países da América do Sul está intimamente ligado ao sucesso da liga profissional no continente. Para que esse novo modelo se concretize, acreditamos ser necessário que a liga profissional preste auxílio a uma incipiente Liga de Clubes Amadores, exclusivamente na forma de recursos humanos para sua gestão. Os clubes, é claro, deverão assumir a responsabilidade pela viabilização do restante do torneio e, junto com os gestores da Liga, definirão todos os detalhes concernentes à estrutura do rugby amador no Brasil.

Acredito que tal fórmula possa ser benéfica a outros países sulamericanos envolvidos no projeto da LAR que se encontram em uma realidade similar à brasileira, tais como Chile e Uruguai, e que mesmo o forte e estabelecido Campeonato Argentino de Rugby aceitaria de bom grado mais algumas mãos competentes para lhe ajudar a se desenvolver.

Tratando especificamente do caso brasileiro, é crucial que não fechemos mais as portas às regiões que lutam sozinhas e isoladas pelo crescimento de nosso esporte. Isso vale tanto para o rugby feminino quanto para o masculino. Mais do que nunca, clubes de diferentes partes do país terão que unir forças e trabalhar juntos para que todos possam usufruir de campeonatos competitivos, bem organizados, justos e, principalmente, divertidos. E se o Brasil profundo nos apresenta o desafio das enormes distâncias, ele também esconde possibilidades desconhecidas de investimento, além de um potencial humano e esportivo sem igual.

 

Sinceramente,

Alexandre Cleaver

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom texto!!! Fico feliz que um participante de um time da cidade de São Paulo tenha levantado esta questão. Aqui em Niterói o cenário é ainda mais difícil. Nós perdemos mais de 10 atletas nos últimos 5 anos para os centros de rugby onde existem os Núcleos de Alto Rendimento. Não tem trabalho de desenvolvimento de base que dê conta.

  2. Perfeitas as observações e a proposta alternativa. Misturar profissionais e amadores não faz sentido. Não acrescenta nada aos profissionais (pelo contrário, podem até regredir) e coloca em risco a integridade física dos amadores, forçados a enfrentar atletas de alto rendimento acostumados a outro nível de intensidade de jogo. Mas o pior mesmo é o descaso com os valores do rugby de educação e formação humana, um diferencial de um esporte democrático que está se perdendo.