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Já é fevereiro e muitos clubes brasileiros estão trabalham para seu retorno aos gramados. Porém, a pandemia ainda afeta o país e a pergunta mais importante é: o momento é condizente com a volta aos gramados? O Portal do Rugby entrevistou o médico infectologista Igor Marinho (@igormarinho1 e @infectologinsta), do Hospital das Clínicas (da Universidade de São Paulo), que também é jogador de rugby.

 

– Como você entende o momento da pandemia para o esporte amador? É aconselhável os clubes pensarem no retorno aos treinos de campo? E como devem proceder?

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Entendo que a pandemia continua sendo um grande problema para o esporte amador, pois a estrutura dos clubes e a capacidade do ponto de vista de saúde (para testagem dos atletas, acompanhamento médico, inclusive de atletas assintomáticos) é muito precária, quase ausente. Ou seja, é preciso um cuidado maior para a reintrodução do esporte nesse tipo de ambiente.

Sobre o retorno aos treinos de campo, é muito provável que nas próximas semanas teremos uma situação que permita pensar na volta aos campos, por conta do início da vacinação e a defervescência natural da pandemia. É lógico que apenas com protocolos bem estabelecidos e com atletas que saibam dos riscos envolvidos.

Com isso, clubes amadores, que se considerem capazes (de modo honesto) de respeitarem protocolos, podem pensar na volta aos treinos de campo, provendo álcool gel e máscaras, mantendo atletas treinando de modo individual e afastando atletas que tenham tido contato com pessoas infectadas.

 

– Para atividades de academia, quais as recomendações?

O treino de academia permite um ambiente mais controlado. As academias que reabriram estão trabalhando com protocolos. Como os treinos são individuais, é possível manter afastamento das demais pessoas, o que ajuda na segurança. Deve-se utilizar máscaras e álcool gel após o uso de cada aparelho. Portanto, o trabalho de academia é possível, sim.

 

– Como você vê as possibilidades que se abrem com a vacinação?

A vacinação é o “game changer”, o ponto de mudança. O combate a doenças virais (ter uma medicação específica de combate) é muito difícil, mas a vacina ajuda a prevenir. Isto é, para doenças em que o tratamento é difícil, o melhor é prevenir. Vemos um leque grande de possibilidades com a vacinação. O Brasil já vacinou 4 milhões de pessoas, o que ainda é muito pouco. Pro indivíduo jovem, que não é profissional de saúde, ainda vai demorar um tempo pra ocorrer a vacinação. Porém, a medida que alguns grupos vão sendo vacinados, o controle da pandemia aumenta.

Sou entusiasta da vacinação, mas é importante cautela, sobretudo porque as vacinas hoje usadas no país são de 2 doses e leva entre 14 a 28 dias depois da vacinação para que o indivíduo tenha imunidade num nível seguro. Com o tempo, colheremos bons resultados.

 

– Já é possível termos previsões para a volta às atividades no rugby amador?

“Estamos trocando o pneu com o carro andando”. Por exemplo, agora no começo do ano, fomos surpreendidos pelas novas cepas do vírus. Ou seja, o vírus muda o tempo todo e já sabíamos disso, mas agora as cepas identificadas no Amazonas, na África do Sul e no Reino Unido têm capacidade de transmissibilidade maior. Isso, por exemplo, causou maior surto no Amazonas.

Com isso, vamos vendo que algumas estratégias vacinais talvez não sejam as melhores. Vimos a África do Sul cancelando vacinação com a AstraZeneca, por exemplo. Aqui no Brasil, não temos estudos que digam que a AstraZeneca não seja eficaz, pelo contrário; e a Coronavac provavelmente é eficaz contra as novas variantes.

Dentro desse contexto, não havendo outras mutações importantes (que mudem o rumo da pandemia), a prática esportiva que todos gostamos – inclusive eu – pode voltar dentro de 8 a 10 semanas. Pelo menos em São Paulo, onde o controle está avançando.

A prática esportiva, de todo modo, não necessidade parar, pois cada um pode fazer treinamentos individuais. Não é o ideal, mas mantém os times unidos, as pessoas ativas.