Derrota para o Paraguai e Six Nations das Américas. Combinam?

Nesse último fim de semana, a Seleção Brasileira de Rugby XV sofreu um duro revés, uma derrota para o Paraguai por 20 x 11. Não chamarei o fato de tragédia, mas o duro golpe já estava sendo anunciado por quem acompanhou o desempenho tanto de Brasil como de Paraguai nos jogos anteriores no torneio. Até então, apostando em um time jovem, o Brasil havia falhado em marcar tries nos dois jogos contra Uruguai e Chile e, apesar de alguns bons momentos, não esteve tão próximo de arrancar uma vitória nessas partidas. O Paraguai, por outro lado, flertou com a vitória contra o Chile, sendo muito mais consistente que o Brasil. É verdade que os Yakarés enfrentaram os Condores em casa, enquanto os Tupis jogaram fora de casa contra os chilenos, mas as quedas de rendimento que o Brasil vinha tendo na parte final das partidas era preocupante. E se comprovou, com um segundo tempo tenebroso dos Tupis.

 

O primeiro aspecto preocupante da derrota é ela ter sido uma surpresa para alguns. Se ano passado o mando de jogo foi uma explicação aceitável para a derrota em Assunção, desta vez fomos superados pelo Paraguai em casa. Certamente, não há outra explicação a não ser o fato de ser um incrível engano acreditar que apenas porque tivemos mais vitórias que derrotas nos últimos anos contra os Yakarés significaria que os paraguaios seriam um oponente superado e inerte. Esse erro de julgamento, aliás, aconteceu no início da “Era CBRu”, quando projetou-se que o Brasil superaria Paraguai, Chile e Uruguai em questão de pouco tempo, já que nossa capacidade de investimento é maior. Esqueceu-se, no entanto, que todos os demais países também estão em evolução. O trabalho, sempre com muita humildade, realizado pelos paraguaios é lúcido e fez o time evoluir claramente nos últimos anos. Por trás está uma parceria com a União Argentina de Rugby – isto é, o Paraguai acordou antes do Brasil para as vantagens de se estar perto da Argentina – e jogos corriqueiros contra oponentes argentinos.

 

Há que se ponderar que Paraguai, Uruguai e Chile têm uma vantagem que o Brasil não tem: são países cujo rugby é polarizado em uma cidade apenas, o que permite mais atividades entre os atletas. É claro que ter o rugby equilibrado em termos de força entre regiões diferentes é excelente, mas no mundo do amadorismo poder treinar mais junto é essencial. Com isso, apresenta-se um claro desafio para o Brasil. Ter mais atletas treinando mais vezes por semana em acordo com um plano de alto rendimento. Mas, acima disso, é preciso que o Brasil jogue mais vezes junto, e contra mais oponentes de nível. Contra o Paraguai, os 23 homens do Brasil provinham de 12 clubes diferentes brasileiros (e um clube português), enquanto o time paraguaio era todo (a exceção do atleta que atua na França) de 4 clubes, todos de Assunção. Além disso, o Brasil conta com atletas muito jovens e alguns jogadores que não disputam o Super 8, o que significa que, por melhores que eles possam ser, a frequência com que enfrentam jogos desse nível, ou a quantidade de vezes que já atuaram nessa intensidade, não é das maiores, impondo um desafio extra à consistência da equipe – física e mental – ao longo dos 80 minutos – além, é claro, do preparo físico, que se mostrou um problema no final das partidas. Isso NÃO significa que eles não devam ser convocados, mesmo porque muitos dos atletas menos experientes têm grande qualidade. Significa apenas que precisam de uma estrutura que lhes garanta mais jogos de nível, tanto no juvenil como no adulto, para suprirem essa carência e fazer com que rendam no máximo de seu potencial.

 

É preciso uma nova estrutura de alto rendimento que atenda melhor às necessidades do XV brasileiro, lidando com suas características, bem distintas da composição padrão dos times paraguaio, uruguaio e chileno. O trabalho da atual comissão técnica comandada por Rodolfo Ambrosio precisa de tempo para colocar as coisas em ordem e será apenas no ano que vem que teremos uma análise justa do trabalho. Seleções estaduais e academias, por exemplo, são possíveis ações que podem catalisar o crescimento se ampliadas, mas requerem uma articulação com federações estaduais e clubes.

 

Com tantas dificuldades para jogarmos contra os oponentes mais frágeis da América do Sul, o que diria contra os norte-americanos? Caso o Six Nations das Américas saia mesmo do papel, e seja pago por terceiros, sem que precise se deslocar verba de outras áreas, o torcedor do rugby brasileiro – assim como os atletas também – tem que ter plena consciência das dificuldades que serão enfrentadas. Se Canadá e Estados Unidos – para não citar a Argentina – tiverem elencos completos, com todos os seus profissionais que atuam na Europa, o destino do Brasil nessas partidas – jogando em casa ou fora de casa – é de atropelos homéricos nos primeiros anos. Não há muito o que se possa fazer em um ano – se o torneio começar mesmo em 2016 – para se evitar derrotas na casa dos 80-100 pontos, o que nem a Itália no Six Nations europeu ou a Argentina no Rugby Championship estão acostumadas. Será necessário paciência e consciência para nos anos seguintes, com um trabalho sério – e diria até pragmático – se transforme em diferenças mais “humanas”. Com um projeto sólido e bem montado em mãos, que não se abale com as primeiras derrotas acachapantes – e não seja mudado de firma imediatista e inquietante, na base da “tentativa e erro” ao pior estilo do futebol brasileiro – o Brasil pode entrar num processo irreversível de crescimento no XV. Mas, leva tempo, e 2016 é cedo para competirmos em bom nível. A vantagem de se entrar no torneio cedo, no entanto, é ganhar experiência e saber logo, desde já, qual o tamanho do abismo que nos separa das nações mais fortes do continente, podendo ter um diagnóstico que permita que se trabalha em acordo e lucidez perante a ambição do rugby brasileiro internacionalmente.

 

Entretanto, pensando para além de 2016 e esperando o dia que jogaremos em maior igualdade com os melhores das Américas, o principal trabalho a ser feito nos próximos anos – e o quanto antes – não é com o time adulto. Se queremos jogar amanhã em nível bom contra Canadá, Estados Unidos ou Argentina, hoje temos que ter nossa seleção JUVENIL competindo já em condição melhor que o time adulto. “Trabalhar o juvenil” não pode se tornar no rugby o mantra “investir na educação” que se vê na sociedade brasileira. Isto é, todos falam que é o caminho, mas quando se torna necessário agir sobre a questão, pouco é feito de efetivo. O que significa que no momento estamos perdendo tempo com um calendário mirrado para a seleção juvenil, enquanto temos ambições que poderão ser frustradas dolorosamente e com frequência no adulto – como o jogo contra o Paraguai mostrou. E o mesmo se aplica a federações estaduais e clubes, que precisam urgentemente priorizar seus times e competições juvenis.

 

Enquanto a seleção juvenil não jogar partidas na casa da dezena contra adversários de nível – por exemplo, entrando no Campeonato Argentino e enfrentando clubes argentinos de qualidade melhor que os que enfrentamos recentemente – nossa seleção adulta sofrerá a falta de “rodagem” que só uma forte formação de base garante ao atleta. O intercâmbio com o país vizinho já começou, e isso é ótimo, mas precisa se intensificar. Para jogar com os melhores, nossos atletas precisam ter crescido entre eles, para conhecerem por experiência própria o caminho do sucesso e não sofreram mentalmente com os desafios que os jogos que virão nos próximos anos irão impor.

 

 

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