Foto; SLAR

ARTIGO OPINATIVO – A Superliga sul-americana (SLAR), a nova liga profissional da América do Sul, anunciou na última sexta-feira seus participantes para a temporada inaugural de 2020 e o Brasil será representado pelo Corinthians, que terá à disposição o elenco dos Tupis.

Os anúncios da SLAR e da CBRu ainda não foram acompanhados pelo clube, que ainda não publicou nada a respeito da nova empreitada (a menos que eu tenha visto). Com isso, ainda há muitas questões, que começarão a ser respondidas assim que o Corinthians e as CBRu confirmarem os detalhes.

De todo modo, vamos analisar o que é bom e o que é ruim de der o Corinthians como o único representante do rugby brasileiro no rugby profissional em 2020. Como sou palmeirense (e nunca escondi e jamais esconderei isso), farei um esforço para ser o mais imparcial possível. Não abordarei os benefícios e efeitos da Superliga para o rugby brasileiro dentro de campo e para o rendimento da seleção. O assunto é apenas a marca escolhida.

 

- Continua depois da publicidade -

O bom: uma marca imensa, um gigante do esporte mundial

Antes de mais nada, não sabemos ainda qual será o investimento que virá da parte do Corinthians. Assim, os pontos bons serão levantados com base em um cenário otimista de interesse real da parte do “Timão”.

  • O Corinthians é a segunda maior torcida do Brasil e a maior de São Paulo. Suas redes sociais são imensas e se o clube as colocar à disposição da divulgação da SLAR, o ganho será imenso, pois:
    • O valor de mercado da marca Corinthians é muito elevado e, portanto, cada postagem do clube tem um valor muito elevado dentro do mercado – o que é bom para trazer patrocinadores;
    • Muitos torcedores do Corinthians que não são ainda do rugby passarão a conhecer o esporte e, mesmo que não se desloquem ao estádio, poderão acompanhar alguns jogos pela TV, aumentando a audiência;
    • O aumento da audiência de TV poderá ocorrer mesmo se muitos rugbiers não-corintianos não quiserem assistir aos jogos. O Corinthians é imenso e esse efeito não seria surpreendente;
    • O Corinthians poderá trazer interesse da imprensa que não existiria sem uma marca desse porte, portanto, trazendo exposição maior ao rugby;
  • O Corinthians tem infraestrutura. Mais especificamente, o alvinegro tem dois estádios e um deles, o Parque São Jorge (a “Fazendinha”) é do tamanho perfeito para o rugby. Se um bom acordo for feito e o rugby puder jogar no estádio, a modalidade ganhará muito, sobretudo se a parceria se estender à seleção brasileira. A localização do estádio dificulta jogos de sexta a noite pelo trânsito, mas o estádio fica próximo ao metrô;

 

O ruim: a alienação da comunidade

  • Não serei hipócrita nem cínico: eu jamais iria a um jogo do Corinthians, de qualquer esporte, na condição de torcedor (mas como jornalista, obviamente que irei, não se preocupem). Eu tenho plena consciência da necessidade de separar as coisas e provavelmente, se não fosse jornalista, veria os jogos pela TV para saber como estão nossos atletas. Porém, assistir a um esporte precisa ser algo divertido e feliz e, como palmeirense, vibrar gritando “Vai Corinthians” não é nada legal. Fere parte da minha identidade pessoal, ainda que o rugby seja muito mais importante para mim que o futebol. Isto porque não haverá outro time para torcer. Creio que a maioria dos rugbiers terão a mesma dificuldade;
  • Não creio que a maioria dos rugbiers não-corintianos torcerão contra, já que os jogadores são os Tupis, que sempre tiveram o apoio da comunidade. Torcer contra não é algo compatível com os valores do rugby, mas é impossível impedir que a indiferença prevaleça – e as criticas diárias se somem;
  • Ao se vincular a um clube de futebol, a CBRu perderá inicialmente ao menos metade do público pequeno que ela já tem – pelo menos no estádio. Será preciso muito esforço para repor a perda com novos fãs. O basquete da NBB sugere que a transferência de torcida do futebol para outros esportes não é nada fácil – e o basquete é muito maior que o rugby;
  • Depois, se novos fãs (torcedores do Corinthians) resolverem ir ao estádio torcer pelo rugby, o que isso significará? Não preciso nem abordar o choque de cultura de torcidas que haverá, com os fãs (e jogadores) de rugby certamente desaprovando possíveis efeitos disso. Será preciso muito trabalho para incorporar o lado bom das torcidas do futebol (como a cantoria, as bandeiras) e deixar o lado ruim de fora (não preciso listar);
  • Como engajar na Superliga o fã do rugby que não quer torcer pelo Corinthians? Pedir compreensão e apoio “pelo bem do rugby” não bastará com a maioria, sejamos lúcidos;
  • Além disso tudo, parece existir uma tendência recente relatada dentro do mercado esportivo de algumas marcas não quererem se associar a clubes de futebol porque perdem parte do mercado por uma rejeição natural. Não sou especialista na área para afirmar, mas a tese existe;

 

A Superliga será um teste duro para a “popularidade” de uma desgastada CBRu junto da comunidade do rugby. Seguindo a análise sobre os desafios que o Corinthians trará, temos ainda:

  • Ao ser a única marca de futebol presente na comunicação e marketing da Confederação no próximo ano, a associação entre o clube e o esporte serão incontornáveis. Qual o efeito disso para a imagem do esporte e da Confederação dentro do universo esportivo como um todo? Outros esportes não passam por tal problema pois o nível profissional é povoado por vários clubes (de futebol ou não). No rugby, haverá um monopólio;
  • Os atletas profissionais sairão do meio dos clubes. Isso poderá afastá-los da comunidade e gerará descontentamento de muitos clubes com a existência da Superliga. A presença de uma marca de futebol não ajuda nessa relação e pode agravá-la. A CBRu precisa de um forte trabalho para mostrar aos clubes os benefícios da nova estrutura e, sobretudo, garantir que eles sejam palpáveis, identificáveis facilmente;
  • Com os jogos da Superliga sendo prioritários na divulgação, como será a divulgação do rugby de clubes? Ela não é boa nem suficiente hoje para aproximar a Confederação da comunidade e isso poderá se agravar com a necessidade de divulgar o Corinthians, trazendo insatisfação;

 

Ou seja…

Se o cenário otimista de investimento vindo do Corinthians não se confirmar, os pontos negativos são muitos para não serem desde já muito bem analisados pela Confederação.

Evidentemente, o projeto inicial da CBRu era ter duas franquias. A existência em um futuro próximo de uma franquia de marca neutra solveria muitos dos pontos negativos da presença do Corinthians no rugby. Isto é, a presença solitária do Corinthians como a franquia brasileira precisa ser transitória – e isso precisa estar claro desde já – com uma equipe mais representativa da coletividade dos rugbiers precisando ser planejada.

Nesse sentido, uma segunda franquia vinculada ao futebol seria o prolongamento dos mesmos problemas. É preciso no futuro próximo ao menos um time neutro, em respeito aos fãs de rugby que não são adeptos dos clubes de futebol. Se ela seria viável, só saberemos após a temporada inaugural da SLAR.

Os benefícios são inegáveis da presença de um gigante do esporte na nossa modalidade. mas há um preço grande. Portanto, aguardemos para maiores conclusões sobre esta experiência.

2 COMENTÁRIOS

  1. Caro Victor, a liga é uma decisão extra CBRu, não participar, seria um passo a trás para o Rugby do Brasil.
    O cobertor é curto, os jogadores que sairem dos clubes para jogar a liga, não serão repostos em um primeiro momento com a mesma qualidade. Mas os benefícios a médio longo prazo são bons. Cresce o esporte.
    Corinthians, futebol, não gosto da idéia em princípio e por princípio. Mas entrendo que é uma descisão de Marketing de quem na liga está investindo.
    O Corinthias é um clube tradicional em outroa esportes também, remo, basquete, natação, etc.
    Espero que vingue.