Sunwolves vencem os Reds no Super Rugby. Foto: Sunwolves

O futuro do Super Rugby vem sendo debatido constantemente nos últimos 2 anos. Após a migração de Cheetahs e Kings para a Europa, a possibilidade de novos times sul-africanos seguirem o mesmo caminho preocupa a SANZAAR (entidade responsável pelo Super Rugby), que, todavia, garante que está trabalhando com todos os cenários. O Western Force, em colisão com a Rugby Australia após sua exclusão da liga, também busca suas alternativas, aproximando-se da Ásia.

O assunto é muito interessante para o futuro de nossa modalidade, já que o Super Rugby é uma competição referência no mundo, congregando grandes atletas de Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Argentina e Japão.

Primeiramente, quais são os problemas atuais do Super Rugby?

  • Dentro de campo a liga vai muito bem, mas vem perdendo jogadores para a Europa. Hoje, ainda a base de All Blacks, Wallabies, Springboks e Pumas está na liga, mas cada vez mais atletas de nome migram para a Europa quando já conquistaram o que queriam no Super Rugby. Ou saem para depois voltarem antes da Copa do Mundo;
  • A migração é reflexo do Super Rugby não gerar receita suficiente para competir em salários com o rugby europeu, em especial com os clubes franceses e ingleses;
    • Essa migração tem o limite na Europa, pelo quanto os clubes europeus podem absorver de jogadores do Hemisfério Sul. Há um limite, mas ainda assim, o êxodo preocupa;
  • As distâncias são muito grandes e os deslocamentos muito caros e desgastantes dentro da liga, já que o calendário coloca as equipes constantemente para jogarem em outros continentes;
  • Mais do que o tempo de viagem em si, o maior problemas dessas viagens são as grandes mudanças de fuso horário, que atrapalhem a recuperação dos jogadores;
  • Os fuso horários tão variados criam problemas para as transmissões. É frequente jogos envolvendo equipes de África do Sul e Argentina em horários terríveis para seus públicos, o que atrapalha a comercialização e o engajamento do público;
    • Os Jaguares argentinos tiveram partidas acontecendo 4h35 da manhã…
  • O Super Rugby vem perdendo força dentro dos mercados de seus países e alguns problemas são claros:
    • Na Argentina, a cultura de acompanhar os clubes e a falta de identidade dos Jaguares não evoluiu. São recorrentes jogos conflitando horários com a rodada de clubes, o que não ajuda na popularização da marca;
    • Na África do Sul, a desvalorização da moeda local criou um êxodo maior de jogadores para fora do país, dificultando a competitividade dos times sul-africanos na liga. O último título foi do Bulls, em 2009, o que atrapalha na criação de interesse. As médias de público e audiências na África do Sul, que eram as maiores do Super Rugby, vem caindo;
    • Na Austrália, o rugby union está ficando para trás na competição por audiência com o rugby league e com o futebol australiano… até o futebol “soccer” virou um competidor real. A falta de resultados contra os times neozelandeses só agrava a situação e a exclusão do Force ainda levou o país a uma crise interna;
    • Na Nova Zelândia, o maior problema tem nome: Auckland. A maior cidade do país, onde vive 1/3 de sua população, tem o pior time do Super Rugby, o Blues, cujos resultados pífios vão tirando interesse do público pela competição. Perder o mercado mais valioso preocupa o rugby neozelandês;
    • No Japão, a federação local não quer mais cuidar dos Sunwolves, buscando apoio privado. Mas no Japão as empresas já têm seus times, que jogam a Top League contratando atletas do mundo todo;
  • Por fim, o formato de disputas com conferências parece não agradar nada o torcedor, em especial o neozelandês, que vê equipes melhores de seu país sendo prejudicadas nos cruzamentos de mata-mata com relação a equipes de pior campanha que se beneficiam do fato de serem as melhores de seus países. Isso claramente quebrou a credibilidade do Super Rugby com seu torcedor mais exigente.

Portanto, como resolver o Super Rugby e devolvê-lo a uma condição saudável, com estádios cheios e financeiramente bem?

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Não há respostas simples. O modelo do Super Rugby atual, mesmo com problemas na prática, tem conceitualmente grandes vantagens sobre o rugby europeu, que são a joia para quem defende o sistema (eu entre eles):

  • O Super Rugby baseia-se em um sistema piramidal quase perfeito, que estrutura as suas franquias acima de selecionados provinciais profissionais ou semi-profissionais, que estão acima de clubes amadores, criando um caminho lógico tanto para os atletas como para o engajamento dos fãs de rugby em três frente distintas e complementares;
  • Com menos jogos que os clubes europeus por ano, as franquias do Super Rugby permitem uma gestão melhor do calendário dos atletas que deverão jogar pelas seleções nacionais;
  • O número reduzido de equipes no topo da pirâmide permite concentrar a qualidade dos elencos e tal concentração de talento é, para muitos, o motivo do domínio das seleções do Hemisfério Sul;
    • Tal concentração também ajuda as seleções nacionais, que podem trabalhar com maior proximidade das franquias, que têm ligação institucional e comercial com as federações;
  • Além disso, o intercâmbio constante entre os times de países diferentes favorece o intercâmbio e a evolução das equipes;

Para mim, o Super Rugby tem dois sérios problemas que precisam ser afastados para que a liga preserve o que tem de bom e possa crescer.

Primeiramente, o Super Rugby precisa ser gerido em bloco, sem que o interesse de cada país se sobreponha. Em outras palavras, o Super Rugby precisa ser uma liga propriamente, com livre trânsito de atletas dentro da liga entre as franquias e comercialização centralizada na liga – isto é, beneficiando a todos os times participantes em todas as suas ações. A busca por cidades asiáticas endinheiradas é uma estratégia também necessária para trazer investimento para a liga – e novos torcedores.

Depois, é preciso ainda uma regionalização da liga mais ordenada, que reduza o número de jogos intercontinentais para equipes que não estão bem na competição e apenas proporcione cruzamentos intercontinentais custosos e desgastante quando eles têm sentido e atratividade para o torcedor. Torcedor esse que ainda precisa de um formato de disputas fácil de ser entendido e que inspire credibilidade.

Portanto, o que eu faria para melhorar o Super Rugby?

  • Dividir por completo a primeira fase regionalmente. África do Sul e Argentina de um lado, Oceania e Ásia do outro. Sem cruzamentos na primeira fase;
  • Abrir uma segunda franquia japonesa, para criar rivalidade em um mercado de 130 milhões de pessoas que já tem gosto pelo rugby. A articulação com a Top League é essencial para o sucesso disso;
  • Hong Kong já é um mercado de rugby e uma expansão interessante rumo à China, enquanto Fiji e Samoa reivindicam uma franquia, mas não têm mercado para sustentarem-se na liga. Por que não unir as dois coisas e ter uma equipe que represente as Ilhas do Pacífico e Hong Kong, baseada em Hong Kong e mandando uns 2 jogos por ano nas ilhas?
  • Na América do Sul, é precisaria uma segunda equipe para criar rivalidade e sentido para os Jaguares, mas o país hoje tem uma economia debilitada e vem planejando a Liga Sul-Americana como solução, que consumirá recursos;
  • Por outro lado, o Western Force precisa voltar às competições e tem o fuso horário menos pior com relação à América do Sul entre todos os times da Oceania, além de estar mais próximo da África do Sul. Como o retorno de Cheetahs e Kings ao Super Rugby é improvável, o Force poderia retornar, alinhado com a África do Sul (já que as viagens de Perth à África do Sul demoram o mesmo tempo que de Perth para a Nova Zelândia) e com aporte de atletas da Liga Sul-Americana (talvez isso faça sentido pelas relações pessoais recentemente formadas… clique aqui para saber mais);
  • Criar um sistema de draft que permita maior circulação de atletas dentro da liga
    • O sistema precisa proteger a capacidade de revelação de jogadores de cada região, garantindo que os jogadores mais cobiçados tenham a preferência para permanecerem em suas regiões de origem;
    • Porém, o sistema precisa permitir que outros jogadores circulem sem perderem o direito de serem convocados pelas seleções nacionais caso estejam jogando em outros países da liga;
    • O sistema precisa garantir que um jogador consagrado da Nova Zelândia ou da África do Sul, por exemplo, não pense apenas em ir para a Europa: Ásia ou mesmo Austrália (onde o mercado esportivo é muito exigente por estrelas) precisam se tornar destinos, fazendo os jogadores permanecerem mais tempo dentro do Super Rugby;
  • Veto sobre horários: é preciso garantir que nenhuma partida ocorra em horários inapropriados para o público de um dos times que esteja em campo;
    • Para o público que assiste pela TV ou pela internet, o mais cedo no final de semana para o pontapé inicial é por volta das 9h e o mais tarde é por volta das 23h. Na sexta, antes das 19h é inapropriado também;
    • As diferenças de horário mais complicadas estão entre Argentina e Nova Zelândia. 20h00 em Buenos Aires são 11h00 na Nova Zelândia (o que advoga em favor de jogos na sexta a noite na Argentina, fugindo do rugby argentino de clubes). 13h00 na Nova Zelândia são 22h00 da noite anterior na Argentina;
    • Entre Buenos Aires e Perth (casa do Force), a diferença é menor. 22h00 na Argentina são 09h00 em Perth e 20h00 em Perth são 09h00 em Buenos Aires;

Exemplificando o formato de disputas que eu considero o mais interessante:

 

> Total de rodadas atual (a ser mantido): 19 jogos para ser campeão;

1ª fase: 10 jogos por equipe (10 semanas seguidas)

  • Conferência Oeste: 6 times = 4 times da África do Sul, 1 da Austrália (Force) e 1 da Argentina;
    • Bulls, Lions, Sharks, Stormers, Force e Jaguares;
  • Conferência Centro: 6 times = 4 times da Austrália e 2 equipes do Japão;
    • Reds, Waratahs, Brumbies, Rebels, Sunwolves e Wild Knights (exemplo);
  • Conferência Leste: 6 times = 5 times da Nova Zelândia e 1 de Hong Kong;
    • Blues, Chiefs, Hurricanes, Crusaders, Highlanders e HK-Islanders

2ª fase: 5 jogos por equipe (6 semanas). 3 grupos de 6 times com:

  • Grupo A: 2 melhores de cada conferência;
  • Grupo B: 3ºs e 4ºs de cada conferência;
  • Grupo C: 5ºs e 6ºs de cada conferência;
  • Isso significaria no máximo 4 jogos contra equipes de outras conferências antes do mata-mata (portanto, apenas 2 fora de casa);

Repescagem: 4 confrontos e 8 times: 2 times do Grupo A (4º e 5º colocados), 3 times do Grupo B (2º, 3º e 4º colocados) e 3 times do Grupo C (1º, 2º e 3º colocados);

Quartas de final: 3 primeiros colocados do Grupo A, 1º colocado do Grupo B + 4 vencedores de Repescagem;

Semifinais e Final se seguem;

 

Será que faz sentido?

Mas, o futuro do Super Rugby poderá ser mais complicado. O que aconteceria se ele acabasse, com os sul-africanos migrando para a Europa? Vou discutir esse cenário em outro artigo em breve!