Um sonho de rara realização. Na história do rugby brasileiro, um clube conseguir a propriedade de um campo é raridade. Na verdade, com a exceção do SPAC, que construiu seu campo em 1963, nenhum clube brasileiro é dono do terreno onde joga. Mas no Rio Grande do Sul essa barreira foi quebrada. O Serra Gaúcha Rugby Clube – antigo Serra Caxias, agora também com nome novo – comprou um terreno em Caxias do Sul para construir sua casa.

Conversamos com o diretor técnico Murray Lizott para saber mais sobre a mudança de identidade do clube e sobre a compra e os planos para o terreno.

 

Quais transformações o clube vem passando institucionalmente nos últimos anos? A fusão entre Serra e Caxias foi um sucesso ou ainda traz desafios?

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Acreditamos que a fusão entre as equipes foi ótima, mas ainda traz muitos desafios. Institucionalmente tivemos alguns percalços como, por exemplo, a saída de pessoas que realizavam um trabalho fantástico em suas áreas, e que ainda estamos procurando manter a proposta que foi iniciada. Novas pessoas entraram para diretoria e algumas que estavam afastadas retornaram para seguir com a operação do dia a dia, o que nos deu um fôlego a mais para colocar em pratica diversas ideias que hoje estão acontecendo.

Acredito que uma das principais transformações é que estamos amadurecendo como instituição, temos diversos projetos de incentivo fiscal aprovados, alguns já executados e outros em captação, tanto na esfera municipal como na federal. Com esse crescimento na parte administrativa, temos que destacar a conquista de novos patrocinadores, alguns bem importantes, como a nossa parceria com a FSG, a qual, nos possibilita um crescimento em diversas áreas nas quais ela está colaborando, podemos citar, a possibilidade de atletas do clube e de fora, terem acesso a uma graduação.

Com um trabalho que já vem acontecendo a bastante tempo, conseguimos inserir o TAG Rugby como modalidade oficial dos jogos escolares da cidade, e com isso, a procura pelo rugby nas escolas aumentou, aliado a isso, estaremos trabalhando em parceria com a prefeitura e escolas para inserir rugby em alguns campos de responsabilidade do município, com isso acreditamos que teremos um crescimento nas categorias de base.

 

Como o propósito da mudança de nome e qual o significado para vocês da nova identidade?

Como a união veio às vésperas do início das atividades de 2017, não houve tempo na época para conversarmos sobre o assunto, e utilizamos um nome de transição, que era a inicial do nome de ambos os clubes. Durante 2017, o novo clube usou provisoriamente a sigla S.C. Rugby Clube como sua identidade. Em 2018, apresentamos o novo nome e brasão, símbolo dessa união, que representa as principais características do Serra e do Caxias. A partir de hoje seremos conhecidos como o Serra Gaúcha Rugby Clube, um nome que dá ênfase a região a que o clube pertence. O brasão apresenta a Águia, símbolo do Walkirians R.C., e o Scrum, símbolo do Serra R.C. Nele também é possível observar o ano de 2005, que foi quando iniciou o rugby na cidade de Caxias do Sul.

 

O Serra Gaúcha RC vai se tornar o segundo clube na história do rugby brasileiro a conquistar a propriedade de um campo de rugby. O único até hoje foi o SPAC, que obteve seu terreno no já longínquo ano de 1964. Como isso foi possível?

Só foi possível graças ao comprometimento de um pequeno grupo de sócios que acreditou na ideia e no sonho que a diretoria da época (2016) apresentou, que era a possibilidade de termos uma sede própria. Inicialmente uma comissão dentro da diretoria, que buscou por áreas dentro do orçamento estipulado para que pudéssemos elaborar um projeto para apresentar aos sócios e formalizar a intenção de compra. No início tivemos muitas pessoas interessadas e sinalizamos o interesse na aquisição, mas que na hora da assinatura dos contratos, houve uma baixa considerável. No final das contas, atualmente temos apenas 13 sócios proprietários na área.

O que falamos para todos os sócios no dia da apresentação, foi de que, quem adquirisse uma joia estaria comprando o sonho de construirmos juntos um clube de rugby, porque do contrário, seria muito mais fácil associar-se a algum clube social já existente na cidade. Hoje olhamos e pensamos que foi um investimento bem audacioso, mas que hoje é uma realidade, e que em breve estaremos usufruindo de todo esforço.

 

Como é a localização do terreno? Quais os custos e qual o cronograma de vocês até transformá-lo em um campo de rugby apto para jogos?

O terreno é dentro da área rural, distante apenas 12km do centro da cidade e todo o percurso para chegar até ele é asfaltado e com possibilidade de ir por mais de um caminho. O terreno fica a 1km de distância de uma futura perimetral que esta no planejamento da prefeitura, o que facilitará o acesso, inclusive para equipes que venham de fora jogar em Caxias do Sul.

O custo do terreno ficou na faixa de 300k e estamos na fase do Projeto Arquitetônico e Regularização Ambiental. Os primeiros passos que eram o pagamento do terreno e documentação (Escritura em nome do Clube) já estão finalizados e foram feitos com os recursos da venda de joias. Agora de acordo com o projeto arquitetônico faremos a terraplanagem e construção da base do nosso projeto que basicamente é campo, vestiários e área para Terceiro Tempo.

O projeto inteiro é focado na construção de um clube esportivo com uma área social para sócios e familiares. Todo nosso projeto conta com área de lazer com piscinas e churrasqueiras, campo de jogo oficial com arquibancadas, quadras fechadas (Sintéticas) por conta do clima da região, além de um salão para realização de eventos (internos e externos). De acordo com o andamento do projeto, os treinamentos, jogos e toda parte operacional/administrativa do clube passará para o novo espaço.

Haverá mais algumas rodadas de venda de joias para realizar benfeitorias, mas também iremos em busca de recursos incentivados para tentar agilizar o processo como um todo. A ideia inicial é conseguirmos mandar jogos na nova sede até metade de 2019.

 

Quais benefícios vocês esperam que o campo trará? Quais projetos vocês querem realizar por lá?

Entre os principais benefícios, possuir maior autonomia para treinamentos e jogos, pois hoje atuamos em parceria com a prefeitura de Caxias do Sul, que libera o campo municipal para treinar e jogar, mas que também necessita ocupar o espaço com outras modalidades.

Outro benefício que teremos é a possibilidade de realizarmos todos nossos eventos, como os almoços coloniais, em nossa própria sede, evitando gastos que hoje temos com a locação de espaços. O intuito é ter o conceito de clube, e ai nos espelhamos muito nos modelos argentinos, onde o atleta e familiares vão até o clube e todos conseguem usufruir do espaço, seja na academia, no bar, ou nas áreas de lazer.

Uma das nossas preocupações é conseguir reter os veteranos dentro do clube, para que as novas gerações tenham a história presente no dia a dia, dando cada vez mais sentido ao investimento realizado.

Inicialmente serão realizados projetos de categoria de base, que hoje são realizados em locais alugados, que possamos ampliar a quantidade de atendimentos em todas categorias. Futuramente, pretendemos acrescentar outras modalidades dentro do nosso próprio clube e que utilizem áreas já existentes e que não prejudiquem o andamento do esporte principal que é o Rugby, como por exemplo, área de lutas, tiro com arco, tênis, fitness entre outras, sendo todas as modalidades já existentes na cidade.

 

Por fim, o que você diria para outros clubes? Qual o caminho para mais equipes terem suas casas próprias?

Difícil falar porque cada região e clube tem sua realidade, por exemplo, aqui temos o Farrapos que tem uma excelente relação com o poder publico que garante toda estrutura, da mesma forma que o Charrua tem uma parceria com a Hípica para utilização do espaço, que hoje já conta com 2 campos, então certamente, cada diretoria decidiu ir em um sentido, e em todos esses casos que citei acredito que haja sucesso.

Outro ponto que para se levar em consideração é que Caxias do Sul e algumas outras regiões do RS ou até mesmo cidades fora dos grandes centros comerciais têm áreas mais descampadas, o que facilita esse tipo de investimento pela oferta.

Para nós, o fator decisivo foi a necessidade de termos autonomia sobre nosso espaço de treino/jogo, e uma quantidade de pessoas apaixonadas pelo clube, que não mediram esforços para realizar esse investimento. Então acredito que a palavra principal seja planejamento. Nem sempre o que deu certo para nós pode funcionar para os outros, mas esperamos que a ideia principal (aquisição de sede própria) e nosso modelo de compra possa servir de modelo e estimulo para que mais clubes busquem esse crescimento.