Foto: Lions Official

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ARTIGO OPINATIVO – Está terminado e arrumado, os Springboks são os “reis” das Series frente aos Lions em 2021, com um toque do passado a vir dar cor ao presente, como contamos neste último artigo do acompanhamento semanal da tour pelo País do Arco Iris.

 

A NOTÍCIA DE ABERTURA: MORNÉ STEYN, AGORA E PARA SEMPRE

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Acabou tudo quase como foi há 12 anos atrás, com Morné Steyn a aplicar a estocada final no jogo com um pontapé bem medido (em 2009 foi no jogo n°2 e a uma distância de 53 metros) e que pôs um ponto final numas series extremamente físicas, duras seja ao nível mental ou táctico, de grande equilíbrio nas fases-estáticas (Lions superiores nos alinhamentos e mauls, Springboks pontualmente mais fortes na formação-ordenada) e que acabou por ser decidido nos detalhes, como a conversão aos 77 do abertura de 37 anos.

Há histórias únicas do desporto mundial e, o rugby, não foge a essa norma, oferecendo diversos momentos nestes três embates emocionantes entre os campeões do Mundo e uma das super-seleções mais lendárias de sempre, seja pelo retorno de Alun Wyn Jones um mês depois de ter sofrido uma luxação no ombro, passando por aquela placagem salvadora de Kolisi a Robbie Henshaw quando o irlandês mergulhou para o ensaio, para o abraço final entre Finn Russell e Morné Steyn com ambos a sorrirem após o último apito final de Mathieu Raynal. Olhando para os dois supra veteranos, Alun Wyn Jones e Morné Steyn, fica demonstrado que não só nada é impossível, mesmo que a certidão de nascimento aponte para uma idade já avançada (e que supostamente ditava uma reforma), como também que os mais experientes são aqueles que têm o condão e o génio para decidir um jogo ou series, o que deve fazer qualquer um pensar no seu lugar no universo.

Morné Steyn não tremeu naquilo que parecia uma reedição de um dos seus maiores momentos de glória no Planeta da Oval, desferindo um pontapé pulsado pela mesma técnica, calma, frieza e paz, dando o mote para não renegarmos estas series (sim, tiveram as suas sombras, com Rassie Erasmus e as insinuações de que os Springboks estavam a ser prejudicados deliberadamente, para além de querer dar a parecer que Nic Berry teve um comportamento preconceituoso com Siya Kolisi) mas sim para as estimarmos e lembrar como 75 jogadores e 40 membros dirigentes ou de equipas técnicas ficaram privados de ver família, amigos e afins, durante diversas semanas (Lions estiveram dois meses longe de tudo e todos) só para honrar as camisolas e todos aqueles que estão em casa.

A ANÁLISE AO JOGO: UM BRAÇO-DE-FERRO DITADO POR QUEM FOI MAIS FRIO

Duas partes, dois domínios diferentes e os Lions têm culpa pela forma como acabou, já que dispuseram de 8 penalidades para armar aos postes, optando, no entanto, por ir ao alinhamento ou formação-ordenada, numa procura incessante pelo ensaio (aquilo que todos exigiam), e estas decisões acabaram por funcionar a favor dos Springboks, que viveram a partir das fases-estáticas ou de situações de kick and chase ou contra-ataque. Os turistas mudaram radicalmente a maneira de jogar quando Finn Russell entrou em campo aos 30′, isto devido a uma lesão de Dan Biggar, acelerando a posse de bola com uma alta incidência para a sua circulação, floreando o encontro com oportunidades de ataque mais ao largo, que, infelizmente, não surtiram em ensaios por três más decisões (Liam Williams numa situação de 2 para 1 optou por se agarrar à bola invés de transmitir para aquilo que seria um ensaio certo de Josh Adams).

Nos primeiros quarenta minutos, os Lions conquistaram duas das formações-ordenadas dos Springboks (e estes duas dos Lions), para além de terem interceptado três alinhamentos da seleção da casa, dominando territorialmente e na posse de bola, e, também, no número de passes após ruck como quebras-de-linha. Ou seja, Lions tiveram as oportunidades suficientes para terem saído para o intervalo com uma vantagem substancial no marcador, só que o último passe ou decisão nunca foi a melhor.

Na segunda-parte, os Springboks trouxeram outro mindset para o campo, algo similar ao que se passou nos dois encontros anteriores, e começaram a responder melhor nos pontapés altos, criando uma boa sequência de fases e de conquista territorial, sem que tenham conseguido chegar à linha de ensaio neste seu melhor período, muito graças a uma defesa bem assertiva dos seus adversários, com Maro Itoje, Courtney Lawes, Bundee Aki ou Robbie Henshaw a se mostrarem perfeitos na placagem e rápidos a reerguer do chão para se reposicionarem. A solução dos comandados de Rassie Erasmus e Jacques Nienaber passou por armar pontapés aos postes a cada penalidade resgatada (4 dentro do meio-campo dos Lions), com Pollard a falhar o alvo em duas delas, o que trouxe alguma incerteza para a decisão final do encontro.

Porém, um pontapé mal calculado de Finn Russell acabou por resultar numa captação de bola por parte de Lukhanyo Am que fez um offload para as mãos de Willie Le Roux, com o 15 a galgar e criar um 2 para 1.Kolbe era o segundo “2”, à ponta e…, fatalmente, foi ensaio. Os Springboks foram frios e eficientes após o intervalo, demonstrando que não é preciso ter largos períodos com a bola na mão para chegar aos pontos, impondo uma categoria no aproveitamento de oportunidades, mesmo com os pontapés falhados do seu abertura titular, com os Lions, por outro lado, a abordarem a máxima do “go big or go home”, como se viu a aposta pelo rugby expansivo em que Finn Russell, Robbie Henshaw e Ali Price foram o centro dos processos. Equilíbrio neste terceiro test match, vitória de quem menos quis jogar rápido (Springboks interromperam o encontro por 10 ocasiões, 6 das quais com o fim de desacelerar o ritmo e intensidade dos Lions) mas daqueles que não claudicaram nos momentos-chave.

O ALERTA: TOXICIDADE TEM DE TERMINAR, A COMEÇAR NOS FÃS

Querem falar de rugby, discutir saudavelmente e com um sentido de crítica coerente e, minimamente, informada? Leiam artigos, revejam os vídeos dos jogos, criem debate normal entre as pessoas e olhem para os números sem deixar de olhar para o seu contexto. Rassie Erasmus elevou a toxicidade deste tour dos Lions para um nível absurdo graças a uma semana de ataque cerrado a Nic Berry, World Rugby e às “forças misteriosas” que pareciam estar a conspirar para que os Springboks caíssem frente aos Lions, mas os adeptos ofereceram a sua larga quota parte, com uma série de ataques nas redes-sociais, com uma série de mensagens complicadas dirigidas a X ou Y, insinuando vários comportamentos e ideias, sem que “existisse” provas em concreto de maldade pura.

Seja pelo whatsapp e os seus grupos, no facebook ou twitter, os fãs aceitaram o padrão de viverem não só sem informação como lêem só aquilo que lhes convém, não tentando procurar outras ideias, contrapontos ou sequer artigos minimamente inteligíveis. A imprensa, seja a maioria ou minoria, é responsável por estes comportamentos e acções, pela criação de uma massa que não está criticamente trabalhada, como também por imprimir um estimulo de vindicta e de um pensamento “eu tenho razão e ninguém mais tem” (há quem use do mecanismo de brincadeira ou gozo para disfarçar os laivos de ódio que tenta controlar internamente), incendiando o espírito desportivo e de fair-play.

Estas series merecem ser recordadas por aquilo que representaram, pelo esforço de todos e termos tido oportunidade de ver dos melhores jogadores do Mundo a entregarem-se de corpo e alma durante quase dois meses de intensidade, raça, sofrimento, alegria e prazer de jogar.

 

OS STATS QUE NOS INTERESSAM

Maior marcador de pontos: Finn Russell (Lions) – 11 pontos
Maior marcador de ensaios: Cheslin Kolbe (Springboks) e Ken Owens (Lions) – 1 ensaio
Jogador com melhor dados no(s) jogo(s): Cheslin Kolbe (Springboks) – 1 ensaio, 50 metros, 1 quebra-de-linha, 5 defesas batidos
Lesão preocupante: Dan Biggar (Lions) – potencialmente joelho ou tornozelo
Jogador que surpreendeu: Nada a apontar