Portal do Rugby lança a Taça Irmãos Turnbull!

Seguindo a tradição do rugby de taças para confrontos ilustres entre adversários históricos, o Portal do Rugby lançou uma sua iniciativa nesse sentido, que esperamos que incentive mais clubes e federações a abraçarem essa tradição de nosso esporte, imortalizada por taças como a Bledisloe Cup (Austrália x Nova Zelândia), a Calcutta Cup (Inglaterra x Escócia), o Troféu Giuseppe Garibaldi (França x Itália), a finada Taça Beilby Alston (São Paulo x Rio de Janeiro), entre outras.

 

Hoje, o Portal do Rugby lança a Taça Irmãos Turnbull, a ser disputada entre SPAC e Niterói, dois dos clubes mais antigos que disputam o Super 8 nacional, e que tanta história têm juntos, seja nos confronto entre eles próprios, desde 1973, ou mesmo antes deles, quando o Rio Cricket representava o rugby brasileiro e quando ainda existia a velha Beilby Alston.

 

Virgílio Neto, do Portal do Rugby, idealizador do troféu, ressalta a iniciativa. “É uma tradição do rugby e SPAC e Niterói são a história viva do nosso esporte”, e acrescenta “queremos inspirar os clubes a manterem vivas as suas histórias e o espírito de confraternização com seus oponentes, que essas taças fomentam. É o espírito do rugby”. SPAC e Niterói entrarão em campo às 15h30 do próximo sábado, dia 23, no campo do SPAC, pela segunda rodada do Super 8 de 2016. A equipe que levar a melhor na somatória dos dois confrontos do ano pelo Super 8 terá a posse transitória da taça.

 

O nome do troféu é uma homenagem à família Turnbull, que participou ativamente dos dois clubes. A história do rugby fluminense está diretamente ligada ao escocês Jimmy Turnbull, que ajudou a introduzir o esporte em Niterói. Depois, o clube fluminense teve Collin e Ian Turnbull em suas fileiras. Collin, falecido ainda jovem, chegou a fazer história ao atuar tanto pela seleção brasileira de rugby como pela seleção de handebol. Ian, posteriormente, se mudou a São Paulo e jogou pelo SPAC, estreitando os laços das duas agremiações, sendo que ambas um pé nas Ilhas Britânicas.

 

Abaixo, reproduzimos entrevista que fizemos com Ian Turnbull acerca da sua história nos dois clubes, publicada originalmente em 20 de abril de 2012.

 

1 – Caro Ian Turnbull, o que você poderia nos contar sobre seu pai, James Turnbull, e o início do rugby no Rio de Janeiro?

James “Jimmy” Turnbull chegou da Escócia, acompanhando os seus pais e seu irmão David, no final dos anos 20 do século passado. A família Turnbull foi residir em Niterói, RJ, onde já existia uma grande comunidade britânica, que mantinha seus clubes esportivos: a Rio Cricket Athletic Association, fundada em 1897, e o Rio Yacht Club, fundado em 1914. Jimmy Turnbull trazia no currículo uma passagem pela Seleção Escocesa Juvenil de Futebol na bagagem e, imediatamente, procurou exercer não só atividades ligados ao Futebol, mas também ao Rugby e ao Iatismo. Inicialmente, jogou pelo Byron FC, mas logo em seguida, ao se associar ao Rio Cricket, passou a praticar, de forma rotineira, o Rugby.

 

Jimmy se casou em 1938 com a minha mãe Helen, campeã juvenil pelo Estado do Rio de Janeiro de Tênis e praticante de Iatismo.

 

O Rio Cricket, logo após a sua fundação, focava-se em corridas atléticas, Cricket, Bowls, Tênis e ao esporte recém introduzido no Brasil, o Futebol. Em 12 de setembro de 1891, foi fundado no Rio de Janeiro o Clube Brasileiro de Rugby Football, mas noticia-se que o primeiro jogo de Rugby, realizado no Estado do Rio de Janeiro, tenha sido disputado entre o Rio Cricket e, possivelmente, um time de marinheiros norte-americanos que visitavam a cidade. A partir de 1925, porém, o Rugby passou a ser jogado regularmente com o surgimento de diversos times, principalmente de empresas britânicas. Era comum um banco solicitar à matriz o envio de um contador que jogasse Rugby como fullback, por exemplo. Em seguida, iniciou-se, em 1926, uma série de jogos “Interstate matches” (jogos interestaduais) disputados pelas Seleções dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Jimmy Turnbull participou de inúmeras destas partidas até a sua interrupção, em 1940, devido a II Guerra Mundial. Muitos atletas, inclusive o Jimmy, foram defender os seus países de origem no conflito, e o Rugby somente voltou a ser jogado em 1947, porém com poucas partidas. Em 1970, o Rugby no Rio Cricket voltou com uma maior força, porém a equipe se desfez no final de 1973, com o formação do Niterói Rugby Football Clube.

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(Seleção do Rio de Janeiro – 1933)

 

2 – Como e quando você deu seus primeiros passos no rugby?

Com certeza foi rolando no chão com uma bola, por sinal quase do meu tamanho, jogada pelo meu pai. Como “nasci” sócio do Rio Cricket, invariavelmente freqüentava a lateral do campo torcendo pelo “meu herói”. Aos 16 anos, timidamente comecei a me juntar ao grupo que praticava o Rugby mas, foi somente aos 20 anos que consegui meu lugar ao sol jogando na ponta, devido ao corpo franzino.

 

3 – Você e seu irmão Colin estão entre os fundadores do Niterói RFC. Como se deu o surgimento da equipe? Como foram os primeiros anos?

Nós já vestíamos a camisa verde e dourada do Rio Cricket no início dos anos 70. O time era composto por residentes das cidades do Rio de Janeiro e de Niterói, RJ. Motivada pelo fato de serem poucos jogos – contra times de São Paulo e alguns  contra times europeus que paravam no Rio de Janeiro a caminho da Argentina – e associada às dificuldades de se colocar um time competitivo em campo para jogos agendados para São Paulo, foi tomada a decisão de uma separação entre Rio de Janeiro e Niterói. A turma do Rio de Janeiro formou o Rio Rugby e o de Niterói formou, em Dezembro de 1973, O Niterói Rugby Football Clube. Fundado na minha residência, na véspera de Natal, tomando-se imagens de presépio como modelo, optou-se pelas cores verde e preto. Na hora da compra das primeiras camisas só havia disponibilidade de tecido rubro-negro. As cores estavam definidas (e aceitas)!

 

Inicialmente inscrito na ABR para o Brasileiro da Segunda Divisão, já em 1974, o NRFC sagrou-se campeão invicto, jogando contra SPAC B, Bauru, Barbarians B, Poli (USP), Nippon e Federal. Eram jogos de “ida e volta”.

 

A partir de 1975, o NRFC, através das amizades, conseguiu um número significativo de jogadores e se apresentou com dois times disputando a Primeira e a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Em 1976, o NRFC sagrou-se pela primeira vez, Campeão Brasileiro da Primeira Divisão Brasileira, derrotando o fabuloso time do SPAC. O número de jogos anuais já era considerável, pois surgiu, na região, o Guanabara Rugby, e os três times (Niterói, Rio e Guanabara) colocavam em campo dois times cada. As disputas de jogos contra equipes internacionais continuavam, pois o Rio de Janeiro era sempre incluído nos seus tours. Periodicamente, navios da Marinha Britânica aportavam no Rio de Janeiro e inevitavelmente um jogo de Rugby era agendado.

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(Foto: Seleção do Rio de Janeiro, 1940)

 

4 – No final dos anos 70 vieram os primeiros títulos do Niterói. Como você avalia a qualidade e a organização do rugby fluminense e brasileiro na época? Quais as maiores dificuldades para se praticar o rugby?

Não podemos comparar o Rugby praticado na época com o atual, pois a característica amadora predominava. Havia uma mistura significativa dos aspectos sociais e esportivos. Era comum as atividades sociais paralelas terem uma importância quase igual às partidas disputadas no campo. O Rugby Brasileiro já se organizava através da União Brasileira de Rugby (1963) e, posteriormente, pela Associação Brasileira de Rugby (1972). As dificuldades financeiras e a pequena disponibilidade de campos adequados marcaram os primeiros anos de atividades do NRFC. Em contrapartida a amizade e união dos jogadores foram marcantes, e se sedimentaram de forma indelével.

 

Ao contrário de muitos países, hoje considerados os “bons” do Rugby, no Brasil o desenvolvimento dos níveis básicos de Rugby praticamente ficaram restritos a poucos colégios no eixo Rio – São Paulo. Com isso, o nível em relação, por exemplo, aos nossos vizinhos argentinos, ficou estagnado ao longo de quase um século. Somente no século XXI é que atenção está sendo dada ao desenvolvimento e também à infra-estrutura necessária. Sem dúvida, acreditamos que o Rugby iniciou, de forma significativa, um progresso que colocará o Brasil em posição competitiva entre os grandes mundiais.

 

5 – Quais foram seus momentos mais memoráveis atuando pelo Niterói?

Momentos Felizes 1 : Todos os treinos, jogos (com exceção de um) e terceiros tempos.

 

Momento Felizes 2 : Ver meus filhos Brian e Lana assistindo meus jogos na lateral do campo.

 

Momentos marcantes : Os campeonatos Brasileiros conquistados : 1974 – Segunda Divisão; 1976 – Primeira Divisão; 1978 – Primeira Divisão.

 

Melhor jogada: 1981 – Jogo extra da Final do Campeonato Brasileiro Primeira Divisão. NRFC X Medicina Rugby. Campo do SPAC – Sto. Amaro. O juiz foi meu grande amigo Bill Rheims. A jogada: Convertendo um drop-goal da linha de dez metros do campo oposto, na lateral. Foi um chute de aproximadamente 60 metros.

 

Jogo memorável : Contra a equipe do HMS Ark Royal da Marinha Britânica. Eles tinham cinco atletas da Seleção da Marinha. Uma cicatriz que tenho na cabeça não me deixa esquecer este jogo. Resultado não sei até hoje – perdemos. Terceiro tempo sensacional.

 

Momento triste 1 : 1982 – O primeiro jogo sem a presença do grande centro – Colin Turnbull. Poucos meses depois fui transferido para São Paulo e não vestiria mais a camisa do NRFC como jogador.

 

Momentos tristes 2 : Cada reforço do time “lá de cima” do NRFC. Saudades!

 

Momento curioso 1 : Já nos anos 80, atuando pelo SPAC B, jogar contra o NRFC foi terrível. Usei a camisa do NRFC por baixo da camisa do SPAC. Errei alguns chutes naquele jogo!

 

Momento curioso 2 – Hospedando TODO o time da Federal Rugby em casa.

 

Viagem memorável : quando NRFC veio a São Paulo para jogar quatro jogos em um fim de semana, COM 14 JOGADORES. Ganhamos três e perdemos o último.

 

6 – Quando você chegou ao SPAC? Como foi jogar rugby em São Paulo?

Vim para São Paulo, transferido profissionalmente do Rio de Janeiro em outubro 1982. Imediatamente entrei para sócio do SPAC e, em 1983, já com 36 anos de idade, passei a jogar pelo SPAC B. Foram mais dois anos “na ativa”.

 

Como foi jogar Rugby em São Paulo? Consegui mais amigos.

 

7 – E quais foram seus grandes momentos pela Seleção Brasileira? Quais as memórias mais fortes?

Foram somente duas convocações para a Seleção Brasileira. Dedicação ao trabalho e família não permitiam deslocamentos a São Paulo para os treinamentos. Não participei da Seleção.

 

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(Foto: Colin Turnbull)

 

8 – Sobre seu irmão, Colin, quais as suas grandes lembranças sobre ele como jogador de rugby?

Não consigo lembrar do Colin apenas como jogador de Rugby, mas sim como um ser humano e atleta realmente fora de serie e completo. Afirmo porém, que tê-lo no time transmitia segurança, dedicação e certeza de uma competência esportiva responsável e de altíssimo comprometimento. No campo, os passes pelas costas, com uma mão, sem olhar, eram marcantes. As minhas lembranças dele são as mais felizes saudades imagináveis. O cenário do meu único sonho com ele, após o seu falecimento, é de um treino de Rugby em que ele transmite paz e felicidade afirmando “que está numa boa”.

 

9 – Colin foi um dos raros exemplos de atleta convocado para duas seleções nacionais de um mesmo país em esportes diferentes, tendo atuado pela Seleção Brasileira de Rugby e pela Seleção Brasileira de Handebol. O que você poderia nos contar sobre o amor dele pelos dois esportes?

O amor dele pelos dois esportes só era superado pelo amor à vida. Destaco o amor às crianças sãs e deficientes, para as quais ele se dedicava profissionalmente e humanitariamente como professor de Educação Física e ser humano.

 

O amor aos esportes estava no sangue dele de uma forma extraordinária pois, além do Rugby e Handebol, ele achava tempo para a prática do Tênis e do Futebol. Herança do Jimmy e Helen Turnbull?

 

A humildade do Colin era marcante, pois os colegas dele da Seleção de Handebol só vieram a saber que ele jogava na Seleção de Rugby através de publicações nos jornais.

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(Foto: Colin Turnbull jogando Handebol)

 

10 – Ian, o que representa o rugby na sua vida? O que falar às novas gerações sobre o que é ser um rugbier?

Rugby é vida. Os seus ensinamentos foram, são e sempre serão diretrizes para uma vida de respeito, felicidade e amizade. Afirmo categoricamente que o Rugby me ajudou a criar meus filhos Brian e Lana de modo a respeitar o próximo e viverem em paz e em feliz harmonia com os familiares e amigos.

 

Momento marcante : A minha transferência profissional para São Paulo transcorreu de forma tranquila pois fui, de imediato, abraçado pelos amigos “adversários” do SPAC.

 

Um Rugbier vive a vida no seu dia-a-dia aplicando os ensinamentos aprendidos e/ou aprimorados dentro e fora do campo. Destaco Respeito ao adversário (sem ele não tem jogo), Companheirismo, responsabilidade e trabalho de equipe.

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(Foto: Niterói Rugby FC (A e B) em Arujá nos anos 70)

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