Um olhar sobre os Tupis: como jogamos contra o Chile?

No último sábado, Brasil e Chile se encararam pelo Sul-Americano e, como aquecimento para o jogo de hoje contra o Paraguai, encomendamos a nosso analista de vídeo, Francisco Isaac, mais uma análise sobre o desempenho brasileiro no empate de 20 x 20 do último jogo, de forma imparcial e distanciada. Vamos a ela!

 

O que nos interessa para esta análise é abordar os pontos positivos e negativos da Seleção dos Tupis, desde o scrum, lineout, tackle, movimentações de ataque e de defesa,  breakdown e a própria análise à postura dos atletas.

 

Jogo que se pode dividir em diferentes fases/partes, com o Brasil a ser dominador em certos momentos do encontro, mas também a deixar o Chile jogar à vontade. Os números de posse de bola das duas partes espelham isso mesmo, com 59-41% na 1ª parte e 70-30% para a 2ª metade. Os quinze últimos minutos do jogo foram passados sobretudo a defender, com o Chile a fazer uso de entradas no 1º e 2º canal, ou seja, entradas curtas e no centro do terreno, para ir apostando, de vez em quando, na ação nas pontas, algo que nunca foi a premissa das duas formações.

 

Nas formações ordenadas o Brasil teve um dia tremendamente mau, com  7 perdas de bola em 15, 7 delas que acabaram em turnover imediato no qual o Chile saiu a jogar.  O melhor trabalho dos chilenos na formação ordenada é notada, especialmente, nos 5 da frente (1ª e 2ª linha) que conseguem fazer o mesmo trabalho de força, bem auxiliado pela 3ª linha. Enquanto isso, o Brasil deixa-se atacar pela força inicial do Chile, preocupando-se excessivamente com a oval, invés de imporem a mesma tensão e força que os chilenos. Como podem ver no vídeo, os scrums mal executados pelo Brasil.

 

Nos alinhamentos, os Tupis estiveram bem melhores, conquistando 7 de 8, em que conseguiram chegar ao try… se notarem bem, os dois tries dos Tupis nascem em alinhamentos laterais, com o 1º aos 23:11 a sair direto para o formação e em 6 fases conseguem entrar dentro da área de validação. Já o segundo provem de um bom maul dinâmico, em que o nº5, Diegão, sai disparado e aguenta com dois adversários até chegar à área de try. A aposta em alinhamentos diretos para o 3º canal (jogada direta para o nº9 para depois abrirem para o 10, ou entrada de uma pequena linha de avançados) ou mais demorados para o 1º/2º (preferencialmente para maul dinâmico), são “armas” fortes do Brasil. Bom trabalho de lifting e um timing a altura do acontecimento. Conseguiram, ainda, roubar” duas bolas aos chilenos nos alinhamentos, em 11 alinhamentos laterais. Vejam os vídeos e notem em outro pormenor interessante: a postura de lifting dos chilenos versus a do Brasil.


 

Rucks, não foi também um jogo particularmente feliz por parte do Brasil, que teve problemas em certos momentos do jogo para aguentar com a maior experiência chilena. Os turnovers que sofreram vêm sobretudo de erros do portador da bola e do apoio ao mesmo, que estiveram lentos ou com uma execução fraca na queda com bola. Em diversos rucks, os adversários dos Tupis conquistaram 6 turnovers, algo que alimentou o ataque do Chile. Pede-se melhor comunicação entre o formação brasileiro e os homens que estão no ruck, que muitas vezes colocam um excesso de corpos para garantir a segurança do ruck, optando por colocá-los na linha e ter mais opções de ataque. O vídeo demonstra uma disputa de ruck algo deficitária que resulta em avant para o Chile.

 

Aonde é que o Brasil conseguiu equilibrar o jogo? Na pressão feita à linha de ataque do Chile. A equipe visitante cometeu cerca de 16 avants, que foram sendo bem aproveitados pelo Brasil para relançar as suas ações de ataque. Quando os Tupis deixam de meter tanta pressão na defesa contrária, permitem que estes consigam gerir melhor a bola e a terem mais espaço para atacar. A pressão da linha obriga a um esforço suplementar da equipe, mas bem treinado pode ser uma das “ferramentas” para o Brasil chegar a outro nível. Vejam os vídeos 1, 5 ou 14 para verem três tipos de pressão alta, a primeira que começa numa boa subida, tackle e penalidade, a segunda que gera erro no pontapé chileno e última que resulta em avant a favorecer o Brasil. A pressão alta pode ser observada no clip 14 e 10, ambas situações que resultam em erros do ataque chileno, com o Brasil a “roubar” a bola ou a parar o jogo. Em 110 tackles efetuados, o Brasil falhou cerca de 22, apostador por mais de 48% com dois homens a placar, 15% com 3 e 37% com só um homem. O 1º try chileno proveio exatamente de uma desatenção no ruck, que permite ao 9 e 11 do Chile fugir (vídeo 4), e o formação dos Tupis tem uma abordagem do tackle da pior forma, o que dá hipótese ao ponta chileno marcar try. O vídeo 15 demonstra algumas falhas de tackle e uma reação fraca junto ao ruck por parte dos brasileiros, algo bem aproveitado pelos chilenos.





 

E a atacar? Bem o Brasil sempre que consegue fazer o seu jogo, arrancar quebras de linha e aumenta a probabilidade de chegar a fases mais avançadas do terreno. Não foi o melhor jogo para um ataque bem articulado, a começar pelos poucos offloads (4), ou os passes para o 3º canal (6). Contudo, ao contrário do Chile, o Brasil é uma equipe que gosta de ter a bola na mão e sabe “criar” certas jogadas, como podem ver no 1º ou 2º try dos Tupis. Depois há as questões individuais… se o nº9 brasileiro é um dos elementos mais dinâmicos da equipe, o nº15 é dos que sabe melhor quebrar a linha e a procurar o espaço para criar situações de ruptura. Para esse jogador vejam o clip para perceberem a diferença que faz com um pouco de espaço. Há um destaque que para nós é importante referir: o nº2 dos Tupis. Veja-se no 1º try a facilidade com que executa um side step e depois um offload com uma pressão de dois jogadores em cima.

 

Na primeira metade do jogo o Brasil tinha conquistado para si, 5 penalidade e só tinha cometido uma, o que demonstrava mais paciência, melhor trabalho e boas ideias na execução de jogo. Porém, ao fim de 40 minutos só tinham feito 5 pontos, com dois pontapés desperdiçados (1 conversão e 1 penalidade), o que os tinha colocado em vantagem. Na 2ª parte cometeram mais faltas (8), mas voltaram a “sacar” 4. Quatro das 9 penalidades cometidas passaram-se nos últimos 20 minutos, o que demonstra algum cansaço físico por parte dos brasileiros, mas que foi, sabiamente, bem controlada e gerida.

 

Se o nº10 dos Tupis tivesse convertido todas as outras oportunidades, a equipe brasileira tinha conquistado a vitória com 28-23. Era merecida? Questionável. O Chile teve momentos de amplo domínio territorial, com um bom trabalho de avançados, mas que pecava, seriamente, na construção de jogadas. Conseguiram chutar diretamente para fora das quatro linhas, em momentos que deviam ter mantido a bola dentro de campo. Já o Brasil, com pouca bola conseguiu dois tries e um ascendente em momentos importantes do encontro. Devia ter aproveitado as 7 penalidades a favor até aos 60’, só que o cansaço, a pouca segurança do portador da bola ou a dificuldade em apoiar de forma eficaz quem ia ao contacto, impediram de garantir outro resultado. O empate aceita-se pela entrega das duas equipes. Se tiverem interesse observem o vídeo para entenderem o que um desapoio ao portador da bola pode resultar.

 

Devemos destacar a exibição do nº8 do Brasil, Nick, que conseguiu 14 tackles (só 2 falhadas), 1 turnover, boa ação nas formações ordenadas, 6 carries e 30 metros conquistados. É das melhores unidades deste Brasil, já que tem todo uma predisposição para se sacrificar pela equipe, sem descurar o seu jogo individual. Vejam o vídeo 11 para perceber o papel que o 8 tem no jogo do Brasil, com uma boa recepção e um offload de nível alto. O número 9 apesar de alguma precipitação é dos elementos que melhor consegue gerir o jogo e até mudar o comportamento da equipe… o terceiro try provem desta “eletricidade” que deixa transparecer, como podem ver no vídeo 13.


 

Escrito por: Francisco Isaac

Foto: Bruno Ruas

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